Ao Novo
Ao som de Fue Bueno Verte - Diego Fontecilla.
Digo coisas e me contradizo todo o tempo. Faz parte da vida, é algo que por mais que eu tente, não consigo consertar. Posso amenizar isso por algumas semanas, mas as contradições sempre vêm. Tem sido assim por anos. E como tenho caído em contradição agora… Quão alto tem sido o preço dela…
Estou com 23 anos. E posso dizer que passei umas boas duas décadas da minha vida sonhando com o dia em que finalmente seria “independente”. Esta palavra, que carrega em si o peso de todo um futuro almejado, é talvez a minha maior contradição. Lembro que passei metade destas duas décadas afirmando que eu só pensava por mim, para mim. Não necessariamente foi assim.
O fato é que quanto mais você tem afeto, quanto mais pessoas estão ao seu redor, demonstrando carinho, falando que te amam, mais você quer ser livre, independente. Ser amado sempre é bom, mas amor demais cansa. E passar dez anos recebendo todos os amores do mundo, de família, de amigos, me fez sempre querer sair um pouco desta confortável zona. “E como será meu futuro? Será que eu lidarei bem com o dia em que todas estas pessoas que me amam hoje estiverem distantes?”
O contrário hoje me sufoca. Vinte anos depois, duas décadas de cuidados, e eu me vejo só. Finalmente realizei dois grandes momentos da minha vida com menos de um quarto de século de vivência. Tenho meu diploma, moro sozinho e tudo é lindo. Mas não costumo derramar em palavras os problemas destas situações.
O diploma guardado na gaveta, a casa vazia, que parece a cada dia se tornar maior agora são partes de uma equação que me levam a entrar novamente em um ciclo de novos vinte anos de preparação para sonhos ainda maiores.
Como eu me vejo com 46 anos? Respondo esta pergunta com outra, mais global: COMO EU ME VEJO? Sonhos depositados em mim pelos outros agora se transformam em sonhos depositados em mim, por mim mesmo. Desde o desejo de me mudar de cidade, ir mais longe já ano que vem, passando pelo desejo de receber bem para poder gerir mais este sonho. Só que um ano agora não tem mais o tamanho de um ano para mim, há um ano. As coisas andam apertadas, e justamente por aquela independência lutada lá atrás.
Estou sozinho. Agora meus atos necessariamente correspondem às minhas decisões e, portanto, tudo tem que ser visto com calma, do alto, de mais alto do que esta visão do meu atual apartamento no terceiro andar pode me dar. Sonhos? Continuo os tendo, mas agora os riscos são infinitamente maiores. Se der errado, se surgir algum problema, não existem pais ou amigos capazes de me ajudar.
Talvez isto me deixe com medo. Talvez isto tenha tirado a conjugação do verbo arriscar. Justamente porque agora eu me vejo DEPENDENTE. De mim, dos meus pais, dos meus amigos. A vida segue e, agora, eu também devo seguir. E a esperança é a de que um simples desabafo em textos escritos madrugada adentro sejam a chave para eu finalmente trancar meu passado onde eu sonhava com o futuro para poder vivê-lo de fato. O futuro de outrora é passado e agora tenho apenas o presente. Os sonhos continuam mas aquele passado, não mais. Olhar à frente tem se mostrado mais gostoso, de fato. Então, que meus olhos não mudem mais de direção.
Futuro, acho que finalmente eu posso te abraçar.
Neste Carnaval eu fui pro baile procurar o meu neg…eu interior
Publicitário que é influenciado por um outdoor. De funk. Esse sou eu. Neste Carnaval decidi fazer algo de diferente: esquecer memes passados e um pouco da minha nova rotina de agora um Publicitário de verdade. Fui para Caldas Novas com dois amigos no que era para ser uma espécie de retiro espiritual, mas sem essas coisas de espírito. É mais ou menos ir para o Natal, não levar o disco da Simone mas ainda assim respeitar a tradição do panetone.
Tínhamos casa em condomínio fechado fora da muvuca que rolava em Caldas, tínhamos bebidas… E tinha um outdoor de um show da Valesca Popozuda no meio do caminho. Isso já bastou para mudarmos um pouco nossos planos. E o melhor (ou pior): era OPEN BAR, falo em caixa alta mesmo porque além de ser open bar, era de cerveja, vodka e água, mesmo que eu saiba que água ninguém toma, ainda mais em um baile funk, em um Carnaval. Enfim.
Tirando o problema de achar um táxi e as pessoas fantasiadas de “bonitas”, tudo era incrível. Sim, tinha a ala das pessoas bonitas de fato. Mas também tinha o bloco dos vestidos de oncinha, de lantejoulas, a ala dos shortinhos “Monique BBB” e os caubóis que estavam pensando que aquilo era esquenta para o Caldas Country. O show da Gaiola das Popozudas começou tarde e terminou cedo. Difícil de entender. Até eu estou sem entender até agora como pude curtir 40 minutos de pernas rebolando AND cantar os funks AND tirar fotos tremidas do celular apenas com um copo de cerveja na mão, em 40 minutos. Porque é claro que a gente bebe muito mais antes do show, pra experiência ficar mais gostosa.
Valesca é linda. Gostosa mesmo. Mas não canta. Até ela já admitiu que sofreu pra começar a carreira de “cantora”. O que se ouvia era ela iniciando a música, botando o microfone pra galera cantar e batendo a mão nas mãos dos ensandecidos na beira do palco. Em um único momento Valesca desceu majestosamente do salto: foi quando um marmanjo resolveu passar a mão nas pernas dela. Ok que “os homens só dão valor quando a mulher é prostituta” (“Bonde das Prostitutas”, MARCELLY, MC), não é porque Valesca está quase nua na sua frente que você vai poder aproveitar, rapaz. Valesca é diva. Você é um bêbado em Caldas.
O local do show, um enorme galpão em um dos mais conhecidos clubes da cidade, era incrível: todo mundo dançando do seu jeito. E o melhor: não vi nenhum desrespeito grave. E é muito bom quando você vai em um show que tem tudo para ser literalmente um inferno e acaba sendo só um purgatório divertido. Apesar do pouco tempo de apresentação, a noite funk em um carnaval foi uma das melhores experiências que eu já tive na vida. Realmente valeu a pena. Talvez porque em Carnaval a gente se permite extravasar (beijo, Cláudia Leitte) e esse é todo o propósito desse nosso feriado nacional, não?

Te amo, caralho!
Conversei ontem com um novo amigo, sobre uma amizade minha que já contabiliza anos. E foi uma das conversas mais incríveis que eu já tive com alguém. Em determinado momento da noite o assunto surgiu: comentei sobre meu melhor amigo e ele, que já tinha presenciado em outras ocasiões toda nossa intimidade, me perguntou o que eu realmente sentia por ele. Eu disse amor, com a maior das convicções que eu posso ter.
Ele ficou meio inerte, meio que não acreditando que eu simplesmente amava um amigo, e nunca quis, nunca busquei ou fui buscado a sentir algo mais. É simples para mim. E complicado para explicar aos outros. “Mas você nunca quis ter um relacionamento com ele?”. Respondi que já tenho. Mas não como ele via. Relacionamentos são complexos. Sempre envolvem amor e, na maioria das vezes são saudáveis.
Disse que amo meu amigo. Amor mesmo. E admito isso abertamente, para quem me perguntar. Que o amo por tudo que já passamos juntos, por me preocupar com ele, querer cuidar, sentir ciúmes. Mas é algo tão saudável que pra mim se torna um sentimento extremamente natural.
“Mas você não sentiria nada por ele? Sei lá, amanhã você não pode se apaixonar?”. Mais uma vez expliquei: a gente já tem uma intimidade que poucos amigos têm, alguns namorados nem sequer chegam perto de ter toda a confiança que nós temos, mas que não passa de uma amizade. “Mas é mais que uma amizade?”. Sim. Mas não significa namoro. Não tem um compromisso, não existem cobranças. E talvez por isso para mim esse amor é algo tão… simples.
- Mas o que você sente por ele?
- Eu o amo. Ele é meu amigo e eu o amo, muito. Por tudo que nós já vivemos juntos.
- Mas você sente algo a mais, não?
- Cara, eu o amo. Ponto. E é isso. Amar pra mim não significa ter algum relacionamento, como você está pensando. Eu amo porque me importo, me preocupo, sinto ciúmes. É simples pra mim. E é só isso.
E eu fiquei pensando nisso. O quão maravilhoso é amar e não ter que exigir que o outro faça tudo do seu jeito. Sentir ciúmes mas não “obrigar” ninguém a ter só você. Ter um “relacionamento aberto” sem necessidade de beijos e sexo. Cara, é incrível pra caralho poder amar alguém e ao mesmo tempo conhecer o namorado do seu amigo. Eis que meu amigo chega, senta do lado, me olha. Continuo meu papo, agora com outro assunto. Ele vira pra mim e solta: “Você quer ir embora?”
- Ué, o que você quer?
- O que VOCÊ quer?
- Quero sair dessa festa.
- Então vamos.
E fomos embora. Passamos o resto da madrugada juntos. Sozinhos. Como dois grandes amigos a muito tempo não faziam. E foi lindo. Amo poder amar quem eu quiser, e não precisar de nada em troca. Nem sofrer por isso.







